quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Um conto sobre nada

Acordou do lado mofado do quarto. Não que houvesse outra opção, pois aquele sempre fora o seu lado. Mesmo após inúmeras reclamações sobre a posição da cama, que era desconfortável e lhe dava a sensação de estar sempre vulnerável, continuava ali respirando toda a sorte de fungos e com a sensação eterna de nariz entupido e uma tosse incurável.
Não tinha muitas expectativas quanto àquele lugar, jamais tivera espaço em sua própria casa. Ali era apenas um lugar onde poderia comer, dormir, tomar banho, acessar a internet, manter as suas (supostamente) coisas e se sentir como uma pessoa estranha que é acolhida sabe-se lá o porquê.
Esse tipo de pensamento, aparentemente dramático, era constante. Todas as manhãs, a sensação de derrota, de querer sair e nunca mais voltar, mas sempre voltava. Não havia para onde ir.
Gostava, aliás, amava as pessoas daquele lugar, apesar de toda sorte de dificuldades de relacionamento. Sabia que não era uma pessoa fácil de lidar, portanto aceitava, mesmo com dor, o tratamento recebido pela família. Não que fosse superior a tudo aquilo, apenas não tinha mais forças para lutar contra o próprio ego e mostrar mais afeto. A propósito, descobrira recentemente seu problema de afeto, não sabia demonstrar e, muito menos, recebe-lo. A partir daí deveria ter sido mais simples assimilar a máxima de que só se recebe afeto quando se demonstra afeto, mas não foi.
Havia várias opções de sentimentos que poderiam prevalecer em sua vida, entretanto escolheu a apatia. Não foi uma escolha totalmente voluntária, apenas fazia parte do processo de sua existência: fase eufórica, fase apática, fase de normalidade, fase eufórica, fase apática, fase de normalidade... Um ciclo sem fim. Depois de um período de euforia em que tudo parecia que ia dar certo, entrou naquele momento em que tudo parece tedioso. Não fazia questão de nada e nem de ninguém, mesmo que fosse importante. Tudo parecia sem brilho, sem cor, sem graça, sem propósito e não tinha nada a ver com as coisas ou as pessoas, era sobre sua própria perspectiva. Colocou um filtro de percepção em sua vida, um filtro embaçado, escuro, fosco... sabia disso tudo e mesmo assim não reagia.
De repente, se pegou pensando nas amizades perdidas, naquelas pessoas por quem nutria muito afeto, mas com quem não falava há tempos. Não sabia mais como falar com aquelas pessoas, pois perdeu a intimidade, a proximidade. Percebeu, então, que era isso que fazia em suas fases apáticas: se isolava, se afastava, não se importava... E, claro, o saldo final era negativo.
A epifania abalou todas as suas convicções. Foi como um soco na boca do estômago que faz perder a respiração. Perdeu o ar, a sensação era que iria sufocar-se em meio a tanta culpa, tristeza e remorso. Sabia da sua parcela de culpa em sua eterna sensação de abandono, mas não sabia que era a causa exclusiva de tudo isso.
Percebeu que pode ter causado muita mágoa naquelas pessoas e tentou dimensionar todo o mal que causou. Era horrível, ainda é. E piorava quando se dava conta de que não conseguiria reparar tudo isso. Mesmo que pedisse desculpa por tudo aquilo, que se explicasse e mostrasse que não era sua intenção, sabia que estava feito, que não há como apagar o que já foi dito ou mudar o que já foi feito.
Num esforço de fazer o corpo doer, tentou encher o coração de afeto para tentar remediar tudo aquilo. Não funcionou. Ainda não sabia como gerenciar a afetividade e, muito menos, como se retratar. Então, em uma atitude desesperada, procurou algum lugar onde poderia se sentir bem, onde pertencesse, para tentar organizar toda aquela bagunça de sentimentos, emoções, lembranças... Mas, não tinha espaço naquela casa, em qualquer lugar se sentiria vulnerável. Tentou, até mesmo, dentro do armário: sentou lá dentro, fechou as portas e, por alguns minutos, parecia que tinha encontrado um pequeno espaço que era seu. Porém, logo o cheiro de mofo venceu aquela sensação e todo aquele pensamento de todas as manhãs lhe dominou por inteiro.
Sabia, sempre soube, que haveria incontáveis batalhas e de que nada adiantaria fugir, pois teria que encarar tudo isso inevitavelmente e, mesmo assim, escolheu mais uma vez dormir do lado mofado do quarto e se deixar levar por tudo aquilo...




sábado, 4 de agosto de 2012

Achados e perdidos

É uma busca constante. Procurando sempre, nunca encontrando. Me perco nessas buscas e, de repente, já não sei dizer o que eu queria encontrar e, estou tão perdida, que não sei como voltar ao começo. Nem mesmo sei como, onde ou o porquê. 
Tenho medo de que, toda essa ânsia de achar o pote de outro no final do arco-íris, me impeça de aproveitar os outros achados dessa busca. Encontrei tanta coisa pelo caminho! Nada planejado ou esperado, talvez algumas coisas, mas não sei como lidar com as surpresas, com o inesperado. Já deixei, até mesmo, de perceber o que estava pelo caminho por restringir a vista e deixar me levar por um foco restrito. 
Muitas buscas erradas, muitos objetivos tortos, caminhos inexistentes, desistências, recálculo de rotas, paradas, lágrimas, suor e sangue. 
Também acertei, aprendi, achei a melhor rota, encontrei, fui encontrada, persisti, venci, construí, amei e ainda teve abraço, carinho e colo. 
Então, continuo, entre erros e acertos, sonhos, expectativas e decepções. Me frusto, me enraiveço, me desespero... Aaaaaaaaah! Mas, ainda há amor, música, amigos, família... ainda pulsa! 
A oscilação é constante e talvez a grande busca seja por equilíbrio ou por um abraço de Tony Almeida. Não sei. Acredito na possibilidade de se encontrar muito mais ou muito menos, mas ainda sim preencher o coração, onde eu guardo os meus tesouros. 

"I will always find you" - mesmo que demore 22 episódios.